Descerradas as cortinas vermelhas, Vanessa da Mata surgiu
sentada em uma escada posta no canto esquerdo do palco. "Como pode ser
gostar de alguém? E esse tal alguém não ser seu?" - foi a pergunta que primeiro fez ao público do
Vivo Rio. Em seu vestido branco, descontínuo e remendado por todas as partes,
Vanessa parecia ter asas. Anjo de poucas moralidades que ofuscava até as luzes
cênicas... Era o sol da noite da poesia de Arnaldo Antunes.
Apesar de o cenário e da música de abertura (“Amado”)
terem sido iguais ao de toda a turnê, aquele não seria mais um show. De muitas
surpresas e outras alegrias foi feito o espetáculo. Concentradíssima, serena,
quase sem errar as letras de suas próprias composições, Vanessa cantou todas as
músicas de Bicicletas... (o quinto cd de sua carreira, que este ano completa
uma década), inclusive "O masoquista e o fugitivo", canção que havia
ficado de fora das apresentações anteriores e que, ao vivo, parecia outra, mais
bonita, mais encontrada. Além destas, reinterpretou perfeitamente a bela canção
de Rodrigo Amarante, "Último Romance" (dessa vez cantando a letra na
sequência original, sem inverter ou repetir...); e relançou "Perfume
Barato", a canção que fez com Fernando Catatau (de Cidadão Instigado) e
que jamais gravou.
Nos minutos que usualmente preenche com hits mais
consagrados e conhecidos, como "Ainda Bem" e "Baú", Vanessa
optou por dar lugar a duas canções não tão conhecidas ou radiofonadas, mas das
mais bonitas de seu repertório: a quase oração de "Zé" e a confessionária,
sincera e aberta "Quem irá nos proteger".
Vanessa, que faz música como quem colhe frutos frescos de
infinitos sabores, mostrou toda a força de sua capacidade criativa na renovação
de uma canção já "velha", gravada em 2008, no álbum SIM:
"Ilegais". Seu reggae à lá
Jamaica ganhou um tom encorpado, com batidas fortes, um quase rock... No lugar
do "cazu" que soprava na versão antiga, Vanessa veio a público
batendo e dedilhando as cordas de uma guitarra vermelha. A cantora, que compõe
as músicas sem conhecer na teoria qualquer instrumento musical, e que já havia
se arriscado na turnê de Sim, quando dedilhava em um violão "Minha herança:
uma flor", tocou com perfeição e segurança, apesar de poucos ali saberem o
quão árdua lhe era a tarefa.
O show que todo o Brasil pôde ver na transmissão ao vivo
do canal Multishow, eu vi de longe, em um "camarote" bem acima do
palco. Do lugar que estava, quase não podia diferenciar os contornos desenhados
em sua face a cada canção. Seus sorrisos, olhares, nuances de sua boca, seus
gestos coloridos, todos me apareceram numa matéria única.. Mas talvez só assim
tenha podido ver todo o conjunto que é Vanessa da Mata. Como é que cantando e
dançando ela dá forma ao que não se vê. Seu corpo desenha no ar o que só
sentimos. É como se nos fosse dado tocar aquilo que representamos em palavras,
numa sinestesia extasiante que nos torna humanos. Transcendente, pois, é
qualquer show de Vanessa da Mata. É assim muito mais do que uma apresentação
concertada de som e ritmos. É um recorte no tempo em que vivemos e sentimos,
que afinal, a vida em nós habita!
Texto por Ellen Araujo.
Crédito: reprodução

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